Neste exato instante, em algum lugar, há um humano conectando o celular a uma caixa de som para propagar a sua playlist pessoal, sem se ligar no que está acontecendo ao redor. O que significa esse gesto? Quais as implicações, causas e consequências deste ato? E as músicas feitas propositalmente pra colar e a gente fica refém daquela melodia sem prazo de vencimento? Estou chamando essas e outras situações sonoras de assédio sonoro.

Caso exemplar de assédio sonoro é a situação com as caixas de som nas praias do Rio de Janeiro. No final de abril, a Prefeitura decidiu enquadrar quem estiver com as caixinhas na praia. A polêmica que explodiu em torno mostra quanto o assunto é importante. Algumas vozes se levantaram em protesto argumentando sobre questões culturais. Dizendo que a galera dos subúrbios tem habito de ouvir musica alta nas suas caixas e não seria democrático proibir. Primeiro, não é só o pessoal do subúrbio que usa caixinhas. São todos. E isso cria um caos, uma guerra de frequências e timbres e ritmos e falas cujo efeito é… saturação, irritação, estresse. Para centenas de milhares que vão à praia apenas curtir. Não dá pra ouvir o mar e nem quem está ao lado com uma caixa à direita e outra à esquerda com volume bastante alto. Pois bem, estamos falando do uso do espaço público. Como é aberto, há quem pense que é de ninguém. É mais complexo explicar a essas pessoas que é de todos. E a gente não quer nada berrando nos ouvidos. Segundo: está amplamente documentado na literatura científica que determinados estímulos sonoros estressam, aceleram o batimento cardíaco e as ondas cerebrais. O contrário também: som pode acalmar. E tudo isso é muito individual. Portanto, sejamos razoáveis, vamos usar fones de ouvido, para não obrigar as pessoas a ouvirem o que queremos.

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O dia a dia mostra que estamos abusando do planeta e de todo o ecossistema de muitas maneiras há muito tempo. O som é mais uma faceta, que começa a ser observada. Outro exemplo de abuso que cometemos sem dar-nos conta é a carne. Ela é o alimento que mais contribui para emissões de gases do efeito estufa e desmatamentos na Amazônia e no Cerrado, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, consumir proteína bovina implica em criar e matar os animais de formas bárbaras. O que fazemos a respeito? Churrasquinho na praia com caixas de som explodindo. Daqui a duzentos anos você vê o planeta comendo proteína bovina como faz hoje? Não… O futuro é vegano.

Nessa mesma perspectiva, no futuro as pessoas não vão mais permitir que seus ouvidos sejam assediados. O abuso acontece na medida em que nosso espaço sonoro é ocupado por outros sem que a gente permita. O volume excessivo acima dos limites saudáveis pro corpo, a repetição excessiva de melodias insistentes e informações nas quais não estamos interessados é também uma forma de abuso.

Na publicidade há infinitos exemplos de assédio sonoro que praticam a premissa da repetição infernal. “Compre batom, compre batom”, “2696969 Insetisan”, “Quero ver pipoca pular, pular, soy loca por pipoca e Guaraná”. Quem merece ocupar seu HD sem poder escolher os arquivos que deseja guardar?  Mais uma chatice que provoca reações negativas?  O telefone que não para de tocar porque as marcas acham legal incomodar diariamente com assuntos exclusivamente de interesse delas. Abuso auditivo. Anúncio excessivo no Instagram? A gente tira. Abuso visual e auditivo.

Ela, a marca, aborda sem consentimento. Invade o espaço. As marcas precisam parar de objetificar a relação com seus públicos. De querer que comprem o que elas têm para vender. Para início de conversa, o termo consumidor precisa ser substituído por públicos por exemplo ou alguma palavra que o valha. Se a marca não pegar na mão, não envolver, a venda não rola. Se continuar se comportando como alguns caras na balada que puxam as mulheres pela cintura e tentam forçar o beijo, só vai provocar indignação e prorrogar o abuso. Ou seja, está no caminho inverso. É muito importante a marca saber bem quem ela é para atrair seus públicos pela ressonância, pela compatibilidade de interesses e coisas do tipo. Estabelecer relação é sobre comunicar. A origem da palavra comunicação vem do latim – communicare que significa tornar comum, compartilhar, trocar opiniões, emissão e recepção de informação.

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Parece longínquo, mas como tudo está se dando muito rápido, assim como vejo o futuro vegano e vai ser crime matar bicho, vai ser também considerado assédio sonoro invadir o espaço dos outros com sons desconfortáveis e executados de maneira excessivamente repetitiva. Você passa a vida inteira com um refrão chato na cabeça ocupando sua memória, querendo ou não.

O som cria vida, mas pode também ferir e matar. Há ferramenta de tortura de guerra mais poderosa do que a repetição de um som com volume alto e não há nada mais paradisíaco do que uma melodia envolvente e linda que desperta na gente um mundo de emoções. É muita potência para ser usada de forma irresponsável.

Afeto é tudo que nos afeta. Quando falo das emoções que o som conduz, estamos falando da capacidade que o som tem de carregar dentro de si a carga magnética de quem criou a obra, com as energias de cada envolvido criativamente no processo. Essa soma de informações que um áudio carrega é capaz de afetar o outro.

Daqui a algumas décadas, creio eu que logo, estaremos formulando políticas para o som, cada vez mais ligado ao bem-estar e a afetividade coletiva! SARAVÁ!

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Ritmo