Surf trip! As amigas finalmente resolvem se reunir para surfar num paraíso perdido, com águas cristalinas e caribenhas, debaixo de um céu azul tropical perto da nossa cidade! O destino era a região dos lagos, litoral do estado do Rio de Janeiro. No caminho, podíamos ver as densas e verdes encostas atlânticas.

O dia era perfeito para viajar, sol ameno e brisa leve. Nada que atrapalhasse o esporte. As pranchas bem presas no teto, as malas geometricamente encaixadas no porta-malas, espumante geladinho esperando a próxima parada e animadas no carro em direção às ondas perfeitas. Expectativa versus a dura realidade encontrada!

Na entrada da cidade de Arraial do Cabo havia obras levantando poeira e um engarrafamento incompatível com uma cidade pequena litorânea. Vimos incontáveis (e assustadores) ônibus-leito de turismo assim que passamos na primeira barreira. Queríamos comer o bacalhau da Ana, a portuguesa que lá vive com certeza, mas não tinha como estacionar o carro e para as pranchas de modo seguro. Mudamos a rota e fomos para o hotel sem o bacalhau.

Já na chegada, encontramos sinais do que viria pelo chão. Lixo! Notava-se que a pousada devia ter sido maravilhosa nos anos 60/70 do século passado. Via-se pela decoração envelhecida, ainda pendurada nas paredes. E que mar. Lindo! Mas invadido e apossado. Na minha memória adolescente, Arraial do Cabo era a ilha mais distante do mundo. Porém, agora transformada em um lugar cheio de gente barulhenta e espalhadora de lixo.

zanna_imagem_media_republica

A recepcionista, bem pouco disponível, tinha um NÃO na ponta da língua para qualquer solicitação. NÃO, os quartos NÃO estavam disponíveis ainda. NÃO, não tinha onde deixar as malas. Diante disso, fomos almoçar no quiosque mais recomendado do pedaço. No caminho, várias pessoas equipadas com caixas de som na cintura. Cada uma ouvindo uma música diferente. Claro!

O quiosque estava agradável. Ainda vazio, de frente para o mar verde de águas límpidas, música amena. Depois da segunda garfada, começou a tocar uma batida barulhenta bem alta. E começaram a chegar pessoas e mais pessoas. Pedi para repetir o disco anterior e aceitaram, o que nos permitiu terminar a refeição com algum sossego.

O maior choque de realidade viria no dia seguinte. Tumulto, gritos, guerra de disparos de som na praia de Cabo Frio, onde estavam as ondas naquele dia. Eu não imaginava que existia uma realidade em que cada mesa é equipada com caixas de som muito potentes, de festa mesmo, medindo uns 70 por 40 centímetros. A soma de todas as emissões de ruído era o caos, a poluição sonora da pior espécie que tive o desprazer de viver. O efeito da cerveja parecia entorpecer ainda mais os sentidos das pessoas que aceitavam e promoviam a competição desumana e insalubre daquele espaço.

zanna_imagem_dupla1_republica
zanna_imagem_dupla2_republica

Peguei minha prancha e corri para água, que com certeza estava mais aprazível. Duas horas se passaram, e meu surf não foi lá essas coisas, apesar das boas ondas e do mar recompensador. De volta a areia e para a Jaque, que ali me esperava, a sensação do mar no corpo não conseguiu aplacar o desconforto e o desespero se reinstalou. Guerra, gritos, crianças igualmente histéricas para se fazerem ouvir, vendedores ambulantes, barracas equipadas, carros de som na pista e individualmente. A maioria dos que caminhavam estavam armados com suas caixas de som.

Essa é a guerra que a gente vê na TV, na Câmara dos Deputados, no Senado, na boca da familícia que ocupa o Brasil: a impossibilidade da comunicação implica na guerra do som, a guerra de quem fala mais alto. E no caos ninguém se escuta, não há comunicação e muito menos afeto.

No dia seguinte, com os ouvidos cansados e louca para voltar para o sossego da minha casa, fomos dar uma volta depois do café da manha para admirar a belezura do mar. Às 8 da manhã, o caos recomeçava. Lá estavam novamente pessoas com suas latas de cerveja na mão direita e as caixas de som na mão esquerda. O desenrolar do dia eu podia prever. Profundamente enjoada das doses cavalares de ruído, senti os arrepios mais desesperados dos últimos 20 anos. Pegamos o carro e saímos correndo dessa República do Barulho.

Há dois mundos se construindo. Talvez vários. Mas dois me ocorrem agora: aqueles que dormem, acordam, estão se lixando para o lixo, para a poluição sonora e visual, para o planeta, e empurram a vida diária, morrendo sem nunca ter sido. Outro que se rebela e expõe as dinâmicas permissivas da nossa sociedade, com foco especialmente no Brasil.

Acredito que a humanidade está evoluindo e que as sombras são mestras nesse processo de transformação. Quando a gente discute e se rebela significa que a transformação está em processo.  Conclusão que me ajuda a digerir a viagem e dar um significado a ela.

E você? Já fez esse tipo de imersão em alguma praia brasileira?

zanna_imagem_media_republica1
Assédio sonoro